Arquivo do autor:Lourdes Sola

Transtornos do Humor


Humor pode ser definido como o tônus da emoção ou a intensidade emocional. Este tônus pode estar dentro do padrão de normalidade, com leves oscilações; pode também estar em baixa por um período prolongado, que é o caso da depressão unipolar,( uma doença afetiva ou do humor) ou ainda estar oscilante de forma intensa, entre altos e baixos, passando por períodos de normalidade, que é conhecido como transtorno bipolar de humor ou depressão bipolar.

Depressão (unipolar) é o estado em que o humor está em baixa por um período longo, de seis até doze meses. Neste período predomina o sentimento de menos valia, de culpa pouco definida, desesperança e comprometimento do desempenho, na qualidade do sono, lentificação motora, idéias suicidas entre outros sintomas. A pessoa não encontra explicação para tal estado. Nada a faz feliz! Nada a reforça positivamente! Este estado não pode ser caracterizado por perdas reais como de um familiar, de um emprego, ou outras condições médicas e muitas menos por uso de substâncias psicoativas. Porque daí, a doença de base seria outra, e não a depressão.

Outra alteração do afeto é o chamado transtorno bipolar de humor, que é caracterizado por fases de depressão, alternadas com fases de euforia (mania ou hipomania), intercaladas por períodos de normalidade ao longo da vida e que poderá ou não, ser acompanhado por sintomas psicóticos.
Para entender melhor, mania é um estado de extrema excitação. E a hipomania já é um estado mais leve, não chega ao extremo mas nota-se uma elevação da intensidade emocional.

Na fase de depressão bipolar, os sintomas são os já relatados. O que vai diferenciar a depressão unipolar da bipolar, é a forma como se apresenta. O curso da doença, com um período de duração menor que na depressão unipolar; é de três a seis meses, início em idade precoce, (antes dos 25 anos), no pós parto,na personalidade basal hipertímica (caracterizada por alegria e alto nível de atividade), histórico familiar e ausência de resposta aos antidepressivos uma vez que a conduta medicamentosa é outra. Já os que caracterizam o estado de mania, são: tendência à megalomania, sensação de poder e de bem estar, tendência a falar muito mais do que o usual, aceleração do pensamento com fuga de idéias, inquietação motora ou maior energia para atividades sociais, sexuais, distraibilidade e pouca necessidade de sono e outros.

Quanto à forma clínica, o transtorno de humor pode se apresentar como, estado depressivo, estado depressivo recorrente, bipolar tipo I (com mais sintomas de euforia) e tipo II, (com mais sintomas de depressão). A incidência é igual em homens e mulheres, com a diferença que a mulher apresenta início mais tardio, tem ciclagem mais rápida (mudança de uma fase para outra), predomina o tipo II até por uma questão hormonal e tem menos tendência a se tornar alcoolista, por questões sociais. Mas vale ressaltar, que a mulher procura mais ajuda que o homem e também adere ao tratamento com mais facilidade.

As formas de tratamento são; medicamentosa, com estabilizador de humor, antidepressivos e antipsicóticos (como prevenção e fase aguda) e psicoterapia com orientação familiar. Crianças também são acometidas pelo transtorno bipolar de humor, muitas delas, na fase de euforia, recebem o diagnóstico de TDAH (Transtorno de Défict de Atenção e Hiperatividade), uma vez que os sintomas são muito semelhantes. Na fase de depressão, ela pode apresentar irritabilidade e agressividade. Todavia há um diferencial importante pois a criança com TDAH, não apresenta tendência suicida como a depressão bipolar. O acompanhamento médico. é particularmente importante porque é bastante comum que o paciente de bipolaridade deseje interromper a terapia medicamentosa .A interrupção do uso do medicamento recomendado, via de regra, desencadeia novos episódios da conduta característica à essa condição: estados de depressão mais intensa e maior exaltação na euforia. Quanto a psicoterapia, a eficácia da Terapia comportamental e cognitiva é inquestionável por trabalhar com reforçadores positivos, capacidade de discriminar contingências aversivas e desenvolver repertório adequado para lidar com eventos que possam interferir diretamente no quadro. A restrição ao uso de álcool e outras drogas, sono suficiente e em horário regular, alimentação equilibrada e atividade física adequada, são fatores importantes para uma boa qualidade de vida de quem sofre de tais transtornos.
Bibliografia

Akiskal HS. Special issue on circular insanity and beyond: historic contributions of French psychiatry to contemporary concepts and research on bipolar disorder. J Affect Disord. 2006;96:141-43.

Barlow,D. H.; Durand, V.M. (2008) Psicopatologia: Uma abordagem integrada .4.ed. – São Paulo-Congage Learning
 Fester, C. B. A (1973). Funcional Analysis of Depression. American Psychologist, 23, 1

Loucos por animais


Loucos e alucinados por animais

 

A forma como nos relacionamos com o mundo tem muito a ver com a forma com que o mundo se relacionou conosco durante nosso desenvolvimento. Quem sofreu privação afetiva neste período tem muito mais possibilidades de ser frágil na forma de amar e se relacionar. A auto-estima e a autoconfiança serão sentimentos importantes nesta relação.

Não se pode generalizar, mas existem pessoas com repertório social limitado, que apresentam dificuldade em manter vinculo com seus iguais por vários motivos; entre eles está à questão da assertividade, autoconfiança e auto-estima. A pessoa não aprendeu a se relacionar adequadamente. Se estas pessoas se apaixonarem por alguém, com certeza será um amor patológico, ou seja, um relacionamento doloroso com uma grande carga de controle. Isso porque, na avaliação delas, terão dificuldade em aceitar um possível abandono por não acreditarem que são capazes de encontrar mais alguém com quem possam se relacionar. Ocupam-se exclusivamente do parceiro, sem controle.

            Na relação humano/animal, pode ser que “só a morte os separe”. Já a relação entre humano/humanos, muitas variáveis poderão entrar em ação.

O padrão patológico de se relacionar pode acontecer de ser humano para ser humano (com mais freqüência no sexo feminino por questões culturais) e de ser humano para animais. A grande diferença é que Cães e Gatos relacionam-se afetivamente com todos aqueles que lhes dão afeto, alimento e aconchego.  Eles nunca emitirão crítica e não sinalizarão comportamentos inadequados; serão sempre companhias não punitivas.  Irão sempre receber seu dono com alegria, mesmo quando este chega tarde. Não criticarão roupas feias, sujas, apertadas ou fora de moda e muito menos a desorganização. Ou seja, são companhias perfeitas.

É claro que estou me referindo aos excessos; amar e cuidar dos animais é uma ação muito nobre e saudável. O que diferencia o ANORMAL do PATOLÓGICO é a intensidade. E o perigo está no distanciamento justificado (eu me entendo melhor com os bichanos que com os humanos), cada vez maior e que acarreta em prejuízos sociais e comportamentais.

 

Maria de Lourdes da Cunha Sola

Terapeuta Cognitivo Comportamental

Especialista pela USP

CRP: 06/46882-6

 Loucos por felinos

MODISMO


Pergunta feita por estudante de jornalismo da Puc-Campinas.

Gostaria de saber se a senhora poderia,  me falar sobre o poder que estes”modismos” exercem sobre a população, não só de jovens, mas também de pais de família bem sucedidos que gastam o salário para comprar uma armadura de Darth Vader (personagem de Star Wars) por exemplo, até que ponto isso influencia na vida da pessoa e como este processo pode ser amenizado para não chegar a graus extremo.

Falando de Modismo

Falemos sobre MODISMO mas não o entendamos como sinônimo de comportamento novo. O ser humano sempre foi movido por reforçadores positivos. Ao longo da existência, este sempre esteve envolvido em episódios que marcaram suas épocas de maneira catártica (a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional intensa).

Um grande exemplo é a antiga Roma, na Idade Media; as BATALHAS DE ARENA. Eram vários dias de preparativos, onde as pessoas se reuniam sedentas por batalhas que inevitavelmente terminavam em mortes. A multidão vibrava e todos esperavam os domingos para assistirem o sangue jorrar, fosse de animais ou de pessoas.

Se fizermos uma busca na linha do tempo, vamos encontrar em todos os séculos e em todas as décadas, movimentos marcantes da cultura. Vide Bossa Nova, Jovem Guarda, Iê Iê Iê e Tropicália, entre outros.

Cada época tem seu diferencial mas o objetivo é o mesmo: a busca de reforçadores. O que tem acontecido atualmente como se fosse um movimento novo, é na realidade, aperfeiçoamento tecnológico. A velocidade como os fatos se mostram, aliados à liberdade e oportunidade de expressão, tem permitido ao jovem e a criança maior acessibilidade as ofertas existentes.

As coisas vão mudando à medida que os estímulos vão crescendo; a sedução aumenta à medida que as informações e os acessos também crescem.

Bom, mas você me questionou sobre produtos e não movimento; voltando à linha do tempo: é a questão do prazer imediato que vai mudando de sentido. O que é reforçador para uma cultura, pra outra já perde o sentido. Conforme aumenta a possibilidade de acesso, aumenta o desejo. E é claro, o poder de sedução de marketing das empresas, traduzido pelo o conjunto de estratégias e ações que provêem o desenvolvimento, o lançamento e a sustentação de um produtos ou serviços do mercado consumidor (Dicionário Novo Aurélio). se encarrega da satisfação deste prazer imediato.Você me pergunta sobre as atitudes dos pais: Os pais de hoje, agem sob efeito de dois movimentos; o da culpa e o da repressão sofrida pela sua geração. A culpa surge por não saberem gerenciar trabalho e companhia genuína. E a repressão, por quererem que os filhos tenham o que não tiveram.

FAÇA AS PAZES COM A BALANÇA


“O Leito de Procusto”

Segundo a mitologia grega, havia um bandido, chamado Procusto, habitando a região da Ática, na Grécia. Este tinha em sua casa, uma cama onde colocava as pessoas que por ali passavam e que eram presas por ele.  A sorte do prisioneiro dependia do seu tamanho em relação à cama; se  fosse  pequeno, seria esticado até alcançar o tamanho da desta e, se fosse grande, teria as pernas cortadas. E é desta maneira que caminha a sociedade atual, quando a temática é padrão de beleza. Todos têm que estar no padrao do manequim 40. Os que se adequam, comemoram sem muitas preocupações; já os que  não estao neste padrao, estão fadados ao sofrimento…

A questao e: onde começou tudo isso?! Nós vamos dançando sempre conforme as músicas que  sociedade toca.

Certo dia, ouvi de uma senhora algo que me chamou à atenção. Dizia ela que,  quando jovem, era muito bonita e tinha um corpo digno de capa de revista porem, ela só se deu conta agora, olhando fotos antigas. Naquela época, os valores eram outros além do corpo perfeito e o único problema relatado para os que estavam “acima da média”, era relacionado à saúde.

Hoje, a grande maioria das pessoas  que não está dentro do padrão é infeliz,  vivendo em atrito diário com a balança e o espelho. Para tornar a situação ainda mais sofrida, aonde quer que se vá, há sempre uma tentação gastronômica no meio do caminho. Os estímulos, as crescentes  facilidades do “disque e receba em casa”; o famoso delivery, estão por toda parte. Em contrapartida, quando abrimos a caixa do correio e pegamos a revista que acabou de chegar, na capa está sempre aquela linda modelo com o corpo desejado pela maioria das mulheres; logo ao lado em destaque: “emagreça sete quilos em uma semana sem passar fome” – uma fórmula mágica. E toda revista da semana fala a mesma coisa; emagreça, emagreça, emagreça! Entramos então na corrida maluca, mudando todo nosso cardápio e saindo em busca de uma academia. Ufa! Tentar até tentamos, mas o resultado não é nada reforçador. Perdemos dois, no maximo três quilos em uma semana e os recuperamos na próxima. Aí, nos sentimos tristes, vazios e altamente fracassados! Ainda não foi desta vez!

Ora, já que não deu certo, fazemos um ataque à geladeira como recompensa. Tentaremos mais adiante.

Como sobreviver a este paradoxo; de um lado, coma! De outro; emagreça!

Duas perguntas básicas irão ajudar nesta decisão tão difícil: você quer emagrecer para ter boa saúde e ficar bem com seu espelho ou você quer emagrecer para fazer parte de um grupo?

Seja qual for a resposta; a batalha é certa mas…e a vitória? Depende somente de onde realmente voce quer chegar e a que voce esta disposto a se privar!

SOBRE ANSIEDADE-Por Raquel Rodrigues S. de Melo-Psicóloga Cognitiva -colaboradora


ATIRE A PRIMEIRA PEDRA, QUEM NUNCA SENTIU ANSIEDADE!!!!!

Origem dos sintomas: Quem, em algum momento da sua existência, não sentiu aquele friozinho na barriga e/ou no estomago, coração disparado, suor excessivo, rosto afogueado, tensão muscular, náusea, vômitos e uma vontade imensa de fugir? Ao fazer uma prova, uma entrevista de emprego, namorar, casar, etc…? Então, todas estas sensações têm um nome: ANSIEDADE, que nada mais é que uma resposta corporal “normal” quando enfrentamos uma situação nova, desconhecida ou quando nos percebemos ameaçados. Sensações que herdamos dos nossos ancestrais: os homens das cavernas, como instinto de sobrevivência e preservação da vida. Definição da palavra “Ansiedade”: Termo grego “ANSHEIN”, que significa: “estrangular”, “sufocar”, “oprimir”. Termo correlato angústia, origina-se do latim “ANGOR” que significa: “opressão”, “falta de ar”, e ANGERE que significa “causar pânico”. Quando a ansiedade deixa de ser uma reação normal e se torna patológica? Biologicamente a ansiedade pode ser definida como um estado emocional ligado à percepção de contextos ambientais: lugares, pessoas, atividades, etc… que são comparados à vivência anterior (memória) e que ativam sistemas cerebrais específicos com função adaptativa (sucesso do indivíduo). (Gray, 1987) Portanto, a ansiedade torna-se patológica quando o ser humano perde a característica adaptativa e passa a evidenciar sintomas fisiológicos que ultrapassam o seu limite, desencadeando prejuízo funcional. Isso ocorre por conta de uma excitação excessiva do Sistema Nervoso Central que leva o indivíduo a fazer uma interpretação subjetiva de uma situação de perigo irreal. Alta ansiedade, alto grau de desenvolvimento de doenças como: Transtorno do Pânico; Transtorno do Estresse Pós Traumático; TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), Fobias, Depressão. Anorexia; Bulimia. Origens da Ansiedade: • Genética: pais muito ansiosos podem gerar crianças ansiosas, ou seja, a criança já nasce com uma pré- disposição para desenvolver os sintomas. Desde cedo, ainda bebê, já se percebe esse comportamento ansioso, que aparece na avidez do mamar, na dificuldade para dormir, agitação, choro freqüente (sem causa), teimosia, possessão e, às vezes, hiperatividade.. • Infância carente e problemática: relação de conflitos entre os pais; lares desestruturados; dificuldade da família em passar afeto e suprir as carências afetivas da criança, faz com que ela cresça insegura, com baixa auto-estima internalizando sentimentos e sensações negativas de que a qualquer momento coisas ruins poderão acontecer. • Dificuldade em aceitar e incorporar fatos e intercorrências novas ou desconhecidas. O que é conhecido nos dá a sensação de segurança e de controle, enquanto que o novo, gera a sensação de “medo”, de incertezas. • Outras situações que podem desencadear quadros ansiosos e desequilíbrio emocional: eventos traumáticos, cobranças profissionais, pressão social, familiar, pressão escolar, doenças, perdas de status, afetiva, material, financeira.. Pensamento X Ansiedade A característica psíquica principal do estado ansioso é o pensamento acelerado. Através dessa ruminação incessante da mente, a pessoa cria a falsa impressão de que poderá controlar, antecipar, se libertar das situações estressoras e/ou terá tudo sob controle, gerando confusão mental, desgaste de energia e comportamentos inadequados. Quando tomar medicação e/ou fazer psicoterapia? Quando as sensações corporais ultrapassarem os limites do indivíduo causando mal estar físico e descontrole emocional. As medicações são indicadas para equilibrar a descarga de noradrenalina que ocorre devido à excitação do Sistema Nervoso Central gerando os sintomas corporais. A psicoterapia ajudará na identificação e reconhecimento das causas que provocam a ansiedade desencadeando comportamentos disfuncionais, como também, auxiliá-lo a manejar e canalizar a sua ansiedade de forma positiva para obter uma vida mais tranqüila e saudável.

 Raquel é Psicóloga Clínica e Psicopedagoga formada pela Puc de Campinas, com especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP. Atendimento para crianças, adolescentes e adultos. End. Av. Ana Costa, 414 – cj 93 – Gonzaga Tefs. (13) 3014-0064 e (13) 9743-4005 – Email: rrsm13@gmail.com

Sobre matéria na revista ÉPOCA


Leia os comentáriosFaça seu comentário -Maria de Lourdes da Cunha Sola | SP / Santos | 16/10/2009 19:54 Sobre o pensamento positivo e a autoestima.

 Como Analista de Comportamento, entendo que o pensamento positivo teria como única função, neutralizar uma descarga adrenérgica (acionar o Sistema Nervoso Parassimpático ), e aí, a pessoa fica com mais capacidade de raciocínio,devido a uma baixa na ansiedade e com mais clareza para realizar o que pretende. Mas, se ela não for à luta,nada se concretizará. E sobre a autoestima,por que quem a tem rebaixada não adiantará pensar positivo? Porque a autoestima se desenvolve na relação com seus familiares durante a vida. Quando a criança é reforçada positivamente pelas pessoas do seu convívio social; pais principalmente.Quando ela é valorizada pelos seus iguais.Está associada aos vínculos positivos ao longo do seu desenvolvimento. Quando numa família,a pessoa é mais importante que os comportamentos.Quando os pais ficam atentos aos sentimentos dos filhos,quero dizer, autoestima se desenvolve na relação social. Obrigada! Lourdes Sola – Psicóloga Comportamental e Cognitiva

CRÔNICA


A TRAJETORIA DE UMA PSICÓLOGA 

Tudo começou com a escolha; “isso ou aquilo”, já diria  Cecília Meireles! Ou se escolhe medicina e não se escolhe psicologia, ou se escolhe psicologia e não se escolhe medicina.”Isso ou aquilo”. Eu escolhi psicologia! O primeiro ano, “Deus nos acuda”; cada professor que entrava  na sala, falava um monte de nomes e de teorias como se tudo fosse familiar a todos. Várias vezes, coloquei o pé para fora e os colegas me puxaram de volta. Levei  um tempo até a linguagem se tornar familiar, para isso, dias e dias na biblioteca. É, no meu tempo o Google não era nada familiar. Sobrevivendo ao primeiro ano, os quatro restantes, que sufoco; não havia tempo para respirar senão junto a filósofos, psicólogos, pesquisadores e afins. Os estágios; maravilha! Já me sentia psicóloga. Quando alguém  me perguntava o que estava fazendo, respondia de boca cheia; estou terminando o curso de psicologia. Já começava a ver as pessoas de forma diferente. Achava que tinha o olhar mais clínico e mais crítico que qualquer pessoa. Ledo engano! O problema começoude fato, no estágio de clínica quando fui atender o primeiro paciente. Quem não sentiu o que eu senti, “atire a primeira pedra”. Ele estava marcado para às cinco da tarde. Tudo ensaiado com a supervisora, papel de anamnese na mão, é só seguir os passos. Tremendo dos pés à cabeça, olho fixo no relógio, cada minuto parecia uma hora. Tomara que ele se atrase ou até não venha. Cada minuto que ele atrasava, meu coração pulava mais forte.  E ele não veio! Ufa! Fui salva pelo gongo! Mas um dia ele, o primeiro, virá! Aí começa o grande questionamento; e se ele souber mais do que eu? Quanta insegurança! Meu primeiro paciente na clínica da faculdade, para aumentar mais meu sofrimento, vertia-se de branco e era muito bonito. Alto, branquinho, cabelinho raspado, só pode ser médico! Passei pela sala de espera, e mais adiante uma colega que perguntou; quem vai atender a este médico? E eu respondi enchendo o peito de medo e orgulho: – Eu! Subi a escada para preparar a sala. Chegando la, joguei no chão  os livros que trazia e pensei em voz alta: e agora? Respirei fundo, lembrei dos ensaios e chamei o moço. Um gracinha, diria a Hebe! Ele não era médico, era cabeleireiro. Fizemos um vínculo muito bom e fui muito bem orientada pela minha supervisora. Depois, vem a formatura. Colação, festa, fotos e despedidas. O primeiro ano de formada optei em ficar na clinica da faculdade no projeto recém formados. Não se ganha dinheiro mas se tem o respaldo da faculdade no que diz respeito à supervisão e prática. Quanto sorri e quanto chorei com os pacientes! Leva um tempo para você se habituar com o sofrimento. Saí da clinica da faculdade com cinco pacientes e montei meu consultório. E como dizia uma mestra, um tanto pessimista ou realista; para iniciar uma profissão de psicóloga ou você é bem nascida ou bem casada. E eu não era uma coisa nem outra. E é preciso ter dinheiro para investir; cursos, congressos, livros, supervisão e terapia pessoal. É, psicólogo tem que fazer terapia! Bom, jogar na loteria não era minha prática. Prefiro coisas mais concretas. Fui fazer algo para vender. Aliás, vendi muito sanduíche natural e muito perfume para pagar a faculdade. Sempre sonhei muito alto, não financeiramente, mas conhecimento. Fazer especialização na USP fazia parte desses sonhos. Cheguei lá e muito além! Ter muito conhecimento, ser uma excelente terapeuta, quem não sonha? E só com muito estudo muita,troca com colegas, cursos, congressos,uma busca eterna. Enquanto eu viver, quero ser psicóloga, a melhor profissão do mundo.