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A PERSONALIDADE E SEUS TRANSTORNOS


Por Lourdes Sola (*)


O que é personalidade?

Particularmente defino personalidade como a lente pela qual vemos, sentimos e avaliamos o mundo – e agimos sobre ele. Tais capacidades dependem das estruturas cerebrais em interação com o ambiente em que a pessoa se desenvolveu.

Façamos uma analogia aos cinco sentidos.  Para que cada um deles tenha função à qual se destina, é preciso que exista uma sintonia perfeita entre a configuração biológica e os estímulos ambientais.

A visão, por exemplo: nossa historia visual dependerá da interação entre a anatomia e fisiologia ocular e os estímulos produzidos pelo entorno. Ninguém conseguirá reconhecer um objeto que anteriormente não tenha passado pelo campo de visão e captado pela acuidade visual.

Com a personalidade acontece também desta forma. Ela é definida pela interação da configuração cerebral com o excesso ou ausência de reforçadores e até estressores que o cotidiano pode oferecer.

Quem estudou filosofia certamente já ouviu falar do Mito da Caverna, citado no livro A República, do grego Platão. É uma metáfora para explicar o conhecimento.  Diz ela: “Escravos viveram desde a infância presos em uma caverna, podendo ver somente sombras refletida na parede. A única realidade para estes escravos era a que lhes permitiam ver. Se alguém chegasse para estes escravos querendo mostrar que o mundo não era aquilo que eles viam, que existiam outras possibilidades, poderia ser chamado de louco, pois aquela realidade para eles era a única”.

Quando há transtornos de personalidade?

O transtorno de personalidade ocorre quando os comportamentos de uma pessoa apresentam um padrão desviante dos da maioria, aceitos socialmente.

Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição), “o Transtorno de personalidade é um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do individuo. É difuso e inflexível, começa na adolescência ou no início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento ou prejuízo”.

De onde vêm estes transtornos?

Os transtornos de personalidade habitualmente surgem em decorrência de uma dificuldade na configuração de determinada estrutura do cérebro, o córtex-pré-frontal (responsável pela crítica e / ou tomada de decisão), reforçados pelo contexto em que a pessoa se desenvolve.

Estudos mostram que a personalidade também pode sofrer alteração em decorrência de traumatismos cerebrais, especialmente em casos de acidente e infecção (como a meningite herpética).

Um caso famoso citado na literatura médica – e muito bem ilustrado pelo Dr. Antônio R. Damásio (O Erro de Descartes, 1994) – é o de um operário inglês, Phineas P. Gage, cuja personalidade se transformou após uma explosão acidental em seu ambiente de trabalho. Gage foi atingido por um estilhaço de ferro, que atravessou sua face esquerda e danificou parte importante do seu cérebro. De líder responsável, o operário tornou-se pessoa de conduta social desviante.

O transtorno de personalidade tem cura?

Segundo Barlow & Durand, ”os transtornos relacionados à personalidade são crônicos, se iniciam na infância e seguem pela vida adulta”.

Trata-se de condição egossintônica, ou seja, o indivíduo convive muito bem com tal característica, ao ponto de não perceber que existe a necessidade de alteração no padrão de comportamento aprendido. Suas condutas causam sofrimento mais ao outro e menos a si próprio.

O diagnóstico

Para que um profissional diagnostique alguém como portador de qualquer transtorno de personalidade são necessários muitos anos de estudo e experiência.

Isto porque há muitos sinais e sintomas também presentes em outros transtornos, tais como o afetivo bipolar e o do controle do impulso. Além disso, também pode haver comorbidade com estes.

Daí a importância de um bom diagnóstico diferencial e de uma boa avaliação, levando-se em conta, histórico de saúde mental da família, histórico de desenvolvimento, histórico de privação afetiva, abuso físico ou sexual na infância e outras possíveis situações de estresse intenso durante o desenvolvimento do indivíduo.

Minha experiência profissional e estudos acerca do tema permitem-me afirmar que o estresse intenso e prolongado na infância pode levar ao transtorno de personalidade borderline, da mesma forma que, nos adultos, pode ser desenvolvida a reação aguda ao estresse (estresse pós-traumático).

Tipos de Transtornos de Personalidade

Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais)

 

  • Transtorno de personalidade paranoide é um padrão de desconfiança e de suspeitas tamanhas que as motivações dos outros são interpretadas como malévolas.
  • Transtorno de personalidade esquizóide é um padrão de distanciamento das relações sociais e uma faixa restrita de expressão emocional.
  • Transtorno de personalidade esquizotípica é um padrão de desconforto agudo nas relações íntimas, distorções cognitivas ou perceptivas e excentricidades do comportamento.
  • Transtorno de personalidade antissocial é um padrão de desrespeito e violação dos direitos dos outros.
  • Transtorno de personalidade borderline é um padrão de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nos afetos, com impulsividade acentuada.
  • Transtorno de personalidade histriônica é um padrão de emocionalidade e busca de atenção em excesso.
  • Transtorno de personalidade narcisista é um padrão de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia.
  • Transtorno de personalidade evitativa é um padrão de inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade a avaliação negativa.
  • Transtorno de personalidade dependente é um padrão de comportamento submisso e apegado relacionado a uma necessidade excessiva de ser cuidado.
  • Transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva é um padrão de preocupação com ordem, perfeccionismo e controle.
  • Mudança de personalidade devida à outra condição médica é uma perturbação persistente da personalidade entendida como decorrente dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica (por exemplo, lesão no lobo frontal).

 

  • Outro transtorno da personalidade especificado e transtorno da personalidade não especificado são categorias utilizadas para duas situações:
    • O padrão da personalidade do indivíduo atende aos critérios gerais para um transtorno da personalidade, estando presentes traços de vários transtornos de personalidade distintos, mas os critérios para qualquer um desses transtornos específicos não são preenchidos;
    • O padrão da personalidade do indivíduo atende aos critérios gerais para um transtorno da personalidade, mas considera-se que ele tenha um transtorno da personalidade que não faz parte da classificação do DSM-5 (por exemplo, transtorno da personalidade passivo-agressiva).

Tratamento

O tratamento medicamentoso (com psiquiatra) ajuda no controle dos comportamentos de agressividade, irritabilidade, pensamentos disfuncionais e outros sofrimentos. A psicoterapia também é muito indicada, principalmente as que incluem orientação familiar para auxiliar nas mudanças comportamentais.

De modo geral, quem procura ajuda não é o próprio paciente e sim as pessoas que convivem com ele. Com exceção do perfil borderline, que habitualmente traz muitos prejuízos para a própria pessoa, bem como suas relações.


Bibliografia

  • Barlow, D. H. & Durand, M. V. (2008). Psicopatologia: uma abordagem integrada. São Paulo: Cengage Learning.
  • Dalgalarrondo, P. (2000). Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. São Paulo: Artmed
  • Damásio R. Antônio (1994) O Erro de Descartes-Emoção, Razão e Cérebro Humano.Companhia das Letras.
  • DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5 Edição)
  • Gangora, M.A.N. (2003). Noção de psicopatologia em Análise do Comportamento. Em: Primeiros Passos em Análise do Comportamento e cognição. Costa, C.E, Luzia, J.C e Sant’ana, H.H.N Org.São Paulo: Esetec. • http://www.redepsi.com.br/2007/12/15/como-vemos-a-psicopatologia-em-an-lise-do-comportamento/

 

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Autor:

MARIA DE LOURDES DA CUNHA SOLA PSICÓLOGA COMPORTAMENTAL E COGNITIVA ESPECIALISTA PELA USP - EXTENSÃO EM PSIQUIATRIA PELA ABP CRP: 06/46882-6 # Atendimento com hora marcada a adultos, adolescentes e orientação familiar. # Transtornos de Ansiedade como: Fobias, Pânico e Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).Estresse,Estresse´Pós -Traumático. #Transtornos do Humor como: Depressão, Transtorno Bipolar e Distimia. # Transtornos de Personalidade. # Transtorno do Impulso como:Oniomania (compra compulsiva), Jogo compulsivo e Tricotilomania ( arrancar cabelos), Amor Patológico entre outros. #Transtornos Alimentares; Anorexia e Bulimia. # Atendendimento ao dependente químico, trabalhando com Prevenção de Recaídas e Relaxamento. # Orientação familiar às famílias de pacientes portadores de Esquizofrenia #Psicóloga e pedagoga, formada pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), com especialização em Análise Comportamental e Cognitiva, pela Universidade de São Paulo (USP). # Membro do Núcleo de Análise do Comportamento de Santos e Região # Acompanhante Terapêutica na SENAT- Sessão Núcleo de Apoio ao Apoio ao Tóxicodependente da Prefeitura de Santos. # Supervisora de alunos de psicologia e profissionais recém formados # Psicóloga voluntária da ONG DIREITO A VIDA

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